Toda semana, do zero
Observei de perto alguém que precisa fazer pedido de reembolso. Apesar de ser uma tarefa recorrente, o aplicativo trata como se fosse sempre a primeira vez. Decidi redesenhar o fluxo para que a segunda vez fosse diferente da primeira.
- Papel
- UX/UI Designer. Do diagnóstico ao protótipo.
- Método
- Diagnóstico medido sobre o produto real, antes de qualquer proposta
- Entregas
- Avaliação heurística de 32 telas, fluxo redesenhado, wireframes, design system, mockups, microcopy completa, estados de erro, vazio e carregamento, protótipo navegável
- Repositório
- Documentação do processo, do diagnóstico às regras de implementaçãoVer o repositório
A ideia
Acompanhei a frustração de alguém que eu conheço repetindo todo mês um processo que o aplicativo tornava mais difícil do que precisava ser. Antes de propor qualquer coisa eu medi o fluxo real, tela por tela. E reconstruí o sistema visual do próprio aplicativo. O resultado é: um fluxo que se resolve em 5 telas com input ativo e captura inicial que dispensa digitação e um onboarding que coleta informações para que o usuário não precise repetir. Este case vai até o protótipo, onde o fluxo proposto pode ser testado.
Olhar antes de opinar
Antes de qualquer análise houve observação.
Fiz uma pesquisa qualitativa com um participante: observação repetida, conversa e devolutiva sobre a proposta. O que me deu uma suspeita antes de abrir qualquer ferramenta: o problema não era uma tela específica, era a desordem.
Transformei "acho que tá ruim" em diagnóstico.
Percorri o fluxo real tela por tela e avaliei cada uma contra as dez heurísticas de usabilidade de Nielsen, com nota e gravidade, amarrando cada problema ao lugar exato onde acontece.
Depois mapeei o caminho como a pessoa o vive, anotando em cada etapa o que ela faz e o que trava. Foi esse mapa que mostrou onde alguém provavelmente desiste.
A restrição não era o inimigo.
Percebi que muitas das etapas mais pesadas existem por obrigação regulatória e nenhum redesenho pode removê-las. O peso não vinha delas, vinham de onde estavam e quantas vezes se repetiam. A validação biométrica acontecia no fim, quando desistir já custa caro. O termo reaparecia a cada pedido. Os dados bancários eram redigitados todo mês, mesmo já estando no cadastro do plano. Marquei cada uma e mudei a pergunta: em vez de "isso precisa existir?", passei a perguntar "isso precisa existir assim, e agora?".


Do diagnóstico ao fluxo
Cinco princípios, e um filtro para cada decisão.
Antes de desenhar escrevi cinco princípios, cada um amarrado às heurísticas que ele corrige.
- OCR e reuso substituem digitação sempre que o dado já existe em algum lugar.
- Stepper persistente, porque ninguém deveria se perguntar quanto falta.
- Validação no momento da digitação, com mensagem que diz o que fazer.
- Linguagem cidadã, com ajuda ao lado do termo difícil.
- Modo recorrente, porque pedir pela quarta vez não pode pesar como a primeira.
A causa era estrutural. Dados que nunca mudam viviam dentro do pedido e por isso voltavam a ser exigidos a cada solicitação. Aquele fluxo era uma coisa só, mas que deveria ser duas.
Separei o que acontece uma vez na vida do que acontece a cada pedido de reembolso. O que era pré-requisito virou um preparo único, guardado depois do primeiro acesso. O que é do pedido em si ficou curto o bastante para caber num intervalo de almoço. Nenhuma exigência foi removida: elas só deixaram de ser cobradas de quem já as tinha cumprido.
No onboarding, feito só no primeiro acesso: confirmação dos dados bancários, o termo de ciência, e a validação de identidade.
No fluxo mensal: cinco etapas, e nenhuma delas repete o que já foi resolvido.


| O que o novo fluxo mudou | Fluxo atual | Novo fluxo |
|---|---|---|
| Etapas com digitação ativa | ~12 | 5 (+1 onboarding único) |
| Telas até o envio | 30+ | ~10 |
| Digitar CRP, CPF e valor | sim | não, OCR |
| Saber quanto falta | não | stepper em toda tela |
| Quando o erro aparece | no fim | na digitação |
| Atalho para quem já usou | não | Refazer última e Adicionar mais uma sessão |
| Modais em cima do fluxo | 3 | 0 |
| Sair do app no meio | sim | não |
| Biometria | no fim | no onboarding, via Face ID |
| Etapas de compliance | 5 | 5, reorganizadas |
Do cinza ao real
Um fluxo no papel é uma hipótese. Desenhar cada tela é como se testa.
Levei o fluxo novo para o Figma e criei os wireframes. Nesta etapa foi importante observar a necessidade de telas menos óbvias do fluxo: as telas de erro, para cumprir a promessa de validação inline com mensagem prescritiva. Também desenhei as telas de carregamento, primeiro acesso e histórico.
Com a estrutura montada, veio a necessidade de ver como as telas reais ficariam. E eu não precisava inventar uma identidade visual. Mantendo a mesma linguagem visual, a única variável que muda é o fluxo, e a comparação passa a significar alguma coisa.
Então reconstruí, o mais fielmente possível, o sistema visual que já existia. Primeiro, eu li o CSS público do site da SulAmérica, que expõe o design system da empresa: 149 variáveis de cor, rampas completas e a família tipográfica declarada. Segundo, medi as capturas de tela do app. Escrevi scripts que contam pixels: frequência de cada cor, altura de caixa alta para deduzir o corpo do texto, perfil da curva dos cantos para achar o raio, contraste de cada par de texto e fundo.
O achado que mudou meu diagnóstico
O app não segue o sistema da própria empresa.
Eu esperava encontrar um app sem sistema. Encontrei um sistema que o app não segue. E esses são problemas diferentes: o primeiro pede construção, o segundo pede governança e migração.
Com o sistema remontado, os mockups puderam ter a cara do aplicativo de verdade. Então pude comparar de verdade os dois fluxos. Até aqui eu tinha 44 telas bonitas e um sistema bem documentado. Liguei tudo em um protótipo navegável.




O que ficou
O resultado é um fluxo redesenhado. De dezoito etapas para cinco, mais um preparo que acontece uma vez só. Do primeiro acesso ao acompanhamento do pedido, navegável em protótipo.
O que eu espero que aconteça, dito como hipótese
- Tempo até o envio deve cair de 8 a 14 minutos para 3 a 5 no caminho recorrente, principalmente porque o OCR tira a digitação e o atalho tira a repetição.
- O abandono entre as etapas de datas e anexos deve cair, porque é exatamente ali que estão as duas heurísticas com severidade crítica.
- O retrabalho de back-office deve diminuir, porque CPF, CRP e valor param de ser digitados.
- Menos chamados sobre "o que é CRP", "o app não aceita meu arquivo" e "como pego o recibo do imposto de renda".
O que eu faria a seguir
- Levar o protótipo para 5 a 8 pessoas em tratamento recorrente, com tarefa de ponta a ponta.
- Validar o OCR e o tutorial embutido com engenharia.
- Sentar com compliance e jurídico para a versão cidadã do termo.
- Definir baseline antes de qualquer rollout: tempo até envio, abandono por etapa, retrabalho por solicitação.
- Resolver o laranja com o time de marca.
- Definir a governança. Sem alguém responsável pelo sistema, cinco cinzas viram seis.
Descubra mais navegando pelo protótipo completo.
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| O que eu entreguei | |
|---|---|
| Telas desenhadas | 44, em baixa e alta fidelidade |
| Protótipo | 43 telas alcançáveis, 145 ligações, zero becos sem saída |
| Design system | 7 documentos, 94 variáveis de cor, 18 componentes, 148 ícones |
| Medição | 14 scripts que reproduzem cada número do sistema |
| Documentação | avaliação heurística, fluxo atual, fluxo novo, microcopy e a decisão de cada tela |
Está tudo aberto.
O diagnóstico e as regras de implementação
A avaliação das 32 telas, o fluxo atual mapeado etapa a etapa, e o redesenho em wireframe e mockup
O fluxo atual anotado tela a tela, e o novo ao lado
O fluxo novo, do primeiro acesso ao acompanhamento
Próximo case


A planilha que virou produto
Desenvolvi uma aplicação desktop para organização financeira para pessoas PF+PJ.